quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Fernando Guedes de Mello, OM* - Serpente

Coloquei esse texto sem a premissão do autor, mas acredito que por uma publicação onde todos possam apreciar, autores conscientes permitem. É um texto fascinante e muito inteligiente no oque se refere a fé ao mito da Serpente..... Na fé semitica e na fé judaico-cristã.
Antonio Araujo.



"Todos nós sabemos que o Sr. Deus fez o homem à sua imagem e as imagens se encontram em espelhos. Os espelhos invertem tudo, de trás para a frente ou da esquerda para a direita. As imagens são coisas “de menos”. Então, concluindo, o Sr. Deus está e sempre esteve num lado do espelho, o lado “de mais”. Nós estamos do outro lado do espelho, estamos do lado “de menos”. Já devíamos ter percebido isso antes. Quando a mãe põe no chão a criança que está aprendendo a andar e se afasta alguns passos, ela faz isso para encorajar o filho a caminhar até onde ela está. Assim faz o Sr. Deus. O Sr. Deus nos coloca no lado “de menos” e nos convida a caminharmos até o lado “de mais” do espelho. Como se vê, ele quer que sejamos como ele (Extraído de “Alô Sr. Deus, aqui é Anna”, de Fynn).
A narrativa dos capítulos 2 e 3 do Gênesis é do domínio público, versa sobre a aventura de primeiro casal humano no jardim do Éden e o papel da serpente na mudança de rumo de suas vidas e, por tabela, nos destinos da humanidade. Já comentamos anteriormente que se trata de uma estória e não de história. Resumidamente, o homem e a mulher viviam numa situação paradisíaca e, dotados dos chamados dons preternaturais, não conheciam a morte. Para se manterem nesse estado, podiam comer da “árvore da vida”, mas não da “árvore do conhecimento do bem e do mal”. Eis que surge a serpente, induz a mulher a provar do fruto proibido e a dá-lo como alimento ao seu companheiro. As conseqüências não se fazem esperar e Deus amaldiçoa-os e expulsa-os do jardim do Éden. Fim da estória.
Ao longo dos séculos, os teólogos do velho paradigma cavaram uma trilha interpretativa que acabou inibindo outras hermenêuticas sobre o episódio. Segundo eles, a serpente é Satanás, Adão e Eva caíram em pecado e arrastaram em sua queda a humanidade e toda a criação. Com isso pretendiam explicar como o mal introduziu-se no mundo e salvar a face do Bom Deus, que teria de intervir então em sua própria obra, para salvar-nos do mal. Mas como se trata de uma narrativa mítica e não histórica, comporta outras versões.
Aqui vai uma: em nenhum momento da narrativa está dito que a serpente é o demônio e sim que se trata “do mais astuto dos animais” (Gn.3,1). A serpente é símbolo da sabedoria em diversas tradições, inclusive no Evangelho (Mt.10,16), a responsável pelo despertar de uma nova consciência. Não foi à toa que a serpente procurou primeiro a mulher, mais dada a intuições. Somente a intuição pode romper com as normas estabelecidas e inaugurar novas abordagens da realidade. É ela que permite grandes saltos no tratamento de questões complexas; ao contrário da abordagem racional, passo a passo, mais própria do homem. A serpente, sábia que era, procurou Eva (a intuição) e não Adão (a razão) para alcançar seu objetivo.
Aliás, o que há de reprovável em adquirir o conhecimento do bem e do mal? Depois de Adão e Eva terem comido do fruto proibido, Deus mal disfarça sua admiração: Eis que o homem se tornou como um de nós (Gn.3,22). Se não tivesse havido a “queda”, o homem continuaria a ser o macaquinho feliz que era, alimentando-se só da árvore da vida. Ao provar do fruto proibido inaugura um novo nível de consciência e , portanto, de ser, capaz de atingir a autoconsciência e de resgatar a árvore da vida num novo patamar. A interdição da árvore da vida (Gn.3,24) refere-se ao nosso instinto animal, cuja energia deverá ser redirecionada então, tornando-nos progressivamente mais racionais, intuitivos, criativos e conscientes.
Como nunca existiu um paraíso terrestre, historicamente falando, é na própria história que o homem está sendo submetido a provas. Possuidor de livre arbítrio (Gn.2,15-17), capaz de nomear (Gn.2,18-20) e de discernir entre o bem e o mal (Gn.3,22), saiu pelo mundo afora (Gn.3,23) para testar seus novos poderes. A própria “expulsão” deve ser interpretada como um atestado de maturidade, como “expulsamos” nossos filhos de casa, quando iniciam vida profissional ou se casam. A própria percepção do primeiro casal de sua nudez (Gn.3,7) indica uma maior consciência de si, inclusive de seus corpos e da morte. A mesma expressão “abriram-se-lhe os olhos” foi também usada no episódio de Emaús (Lc.24,31) para indicar que aqueles discípulos haviam ganho uma nova consciência do mistério de Cristo. Também o “esconder-se” (Gn.3,9-10) pode ser visto como uma reação inicial de recuo diante do novo desafio lançado ao homem.
Finalmente, a maldição lançada à serpente: Porei hostilidade entre ti e a mulher, entre sua linhagem e a dela. Ela te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar (Gn.3,15). A serpente, símbolo da sabedoria, manifesta-se por etapas na vida dos homens. Numa etapa primordial, prevalece a “árvore da vida”, nossa herança animal. Na etapa seguinte, a da “árvore do conhecimento do bem e do mal”, despertamos para o racional, início da jornada propriamente humana. A partir daí, temos de desenvolver a racionalidade, preparando-nos para o despertar da intuição, representada na mulher. Quando a atingirmos, “esmagaremos a cabeça da serpente”, transpondo a fase da racionalidade, o que não se dará sem lutas. Nesse ínterim, podemos esperar que a serpente nos fira o calcanhar, ferimento menor, se comparado com o esmagamento de sua cabeça. Em outras palavras, a descendência da mulher – a intuição – acabará por prevalecer sobre a descendência da serpente – a razão.
* Engenheiro, teólogo, praticante de yoga e meditação, e autor do livro “Reencontro Cristão: Reflexões para o Cristianismo do Terceiro Milênio”, Editora DP&A; tel.: (031) 3285-2378; email: mello@task.com.br"

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

 Zizi Possi - A Paz

A Paz está em nossas mãos

Nosso maior desafio é transformar os valores da Cultura de Paz em realidade na vida cotidiana.
Preparar a paz, portanto, significa:
• respeitar a vida e a dignidade de cada pessoa, sem discriminar nem prejudicar;
• praticar a não-violência ativa, repelindo a violência em todas suas formas: física, sexual, psicológica, econômica e social, em particular ante os mais fracos e vulneráveis, como a crianças e os adolescentes;
• compartilhar e cultivar a generosidade, a fim de terminar com a exclusão, a injustiça e a opressão política e econômica;
• defender a liberdade de expressão e a diversidade cultural, privilegiando sempre a escuta e o diálogo;
• promover um e um modelo de desenvolvimento que tenha em conta a importância de todas as formas de vida e o equilíbrio dos recursos naturais do planeta;
• contribuir com o desenvolvimento de minha comunidade, propiciando o respeito para criar novas formas de solidariedade.
A Cultura de Paz se insere em um marco de respeito aos direitos humanos aos valores fundamentais da vida democrática, como a igualdade e a justiça social.

A paz para os jovens

A transformação dos valores de uma cultura de guerra e violência para valores de uma Cultura de Paz e Não-Violência é o maior dos desafios que temos pela frente, em escala planetária. A violência transborda pelos meios de comunicação, inunda o dia a dia.

A paz no cotidiano:

É

Respeitar a vida
Rejeitar a violência
Ser generoso
Ouvir para compreender
Preservar o planeta
Redescobrir a solidariedade

Respeitar a vida

“Observe atentamente o caminho que seu coração aponta e escolha esse caminho com todas as forças”

Provérbio hassídico

Pensar que a vida, que existe há tão pouco tempo, já está ameaçada.
Dizem os biólogos que uma espécie viva está desaparecendo
do planeta a cada vinte minutos.

A violência nas grandes cidades vitima milhares de pessoas, principalmente jovens.
Um simples apertar de gatilho interrompe uma vida jovem, com sonhos, paixões, talentos.

Temos que praticar o máximo que pudermos o resgate da vida, a defesa da vida, o respeito à vida.

A vida é criativa.
Observe as folhas de uma árvore. Se olhar atentamente, perceberá que não existe uma folha igual à outra! O mesmo acontece quando observamos as multidões caminhando pelas ruas: quantas pessoas diferentes umas das outras! Na família humana, em todo nosso planeta, abraçamos um número imenso de raças, culturas, religiões, visões de mundo, valores…

Rejeitar a violência

“O primeiro princípio da ação não-violenta é a
não-cooperação com tudo que é humilhante”

Mahatma Gandhi

Recorrer à violência significa abrir mão de tudo o que aprendemos conquistamos durante um processo milenar de civilização.

Se dirigirmos nossa indignação ao alvo errado, isto é, se combatemos o agressor, em vez de combater a agressão, perdemos a oportunidade de estabelecer uma nova relação com o outro. Além de, em grande parte dos casos, alimentarmos o ciclo vicioso da violência, quando a vítima reage, se tornando um novo agressor.

Ser generoso

“A generosidade - o amor - é o fundamento de toda socialização porque abre um espaço para o outro ser aceito como ele é. E, a partir daí, podermos desfrutar sua companhia na criação do mundo comum, que é o social”

Humberto Maturana


A generosidade não é um direito, tampouco um dever. Ela nos humaniza e nos mostra que, no essencial, somos todos iguais: evitamos sofrer; buscamos felicidade, paz, justiça, realização; desejamos ser queridos e respeitados.


Uma das características mais evidentes da generosidade é essa naturalidade que dispensa qualquer tipo de recompensa, que se satisfaz em si mesma.
Outra é a liberdade: ninguém é obrigado a ser desprendido nem a estar disponível para os outros.
Mas todos gostaríamos de ter essas atitudes porque inspiram confiança e criam uma atmosfera amigável à nossa volta.
Isto nos leva a pensar que a generosidade também é contagiante.
Envolve a quem dá e a quem recebe, eleva a auto-estima de ambos.